• Marina

There and back again



Começo pedindo desculpas pelo título em inglês (que traduzido para o português ficaria algo como 'lá e de volta outra vez'). Recentemente li 'O Hobbit', do J. R. R. Tolkien, e o título do livro de memórias do personagem principal, Bilbo Baggins, me pareceu também o melhor título para o primeiro post deste blog.


Há anos ensaio ter um blog para dividir pensamentos (e milhões de outras coisas), e até já cheguei a ter um em algum site do passado. Mas era tímido e cheio de dúvidas, por isso faltou-lhe vigor e faleceu logo, três posts depois de ter começado. Em plena pandemia 2020 decidi colocar esta vontade em prática mais uma vez, só que agora com mais energia.


O engraçado é que, nestes últimos dias, encontrei sem querer entre meus documentos no Google Drive o primeiro post de um imaginário blog, um texto que escrevi em 10 de março de 2017. Assim como uma querida amiga minha me contou ter encontrado um texto antigo de sua própria autoria, perdido nas Notas do celular, em que falava para si mesma coisas tão profundas e significativas que mesmo depois de anos e anos continuavam ser pura verdade, este primeiro post datando de 2017 continua sendo o perfeito primeiro post, ainda que tenha sido escrito há pouco mais de três anos atrás. Tudo o que a Marina de 2020 gostaria de dizer, a de 2017 já havia dito — só lhe faltou a coragem de apertar o botão 'publicar'.


Ainda que as circunstâncias tenham mudado significativamente de lá pra cá, a mensagem continua sendo a mesma que escreveria agora. Então, decidi ser fiel à Marina do passado, e fazer uma reverência a este 'eu' que não mudou (apesar dos tantos outros 'eus' que já morreram e nasceram desde então), e finamente publicar aquilo que escrevi — apenas com alguns ajustes, pois a Marina versão 2020 é ligeiramente mais sucinta. De resto, mantive o texto como foi escrito, e relevei algumas empolgações excessivas que não escreveria hoje — espero que você que o lê pela primeira vez, as releve também.


Acredito que agora o título tenha ficado devidamente justificado — fez sentido, não fez? Assim como Bilbo, sinto que fui e voltei para o mesmo, porém completamente diferente, lugar.

São Paulo, 10 de março de 2017


A ideia para este primeiro post surgiu rápida e precisa, bem antes do blog estar pronto – escrevo estas linhas com rapidez em um documento em branco aberto de sopetão. Não era isso que planejava fazer hoje — mas foi isso que o dia planejou para eu fazer.

Queria começar pelo real começo. O site, e consequentemente este blog, são produtos de uma mudança de direção que começou a acontecer no ano passado (2016), e quase tudo o que veio depois deste começo de mudança (digo começo pois acredito que mudanças são um processo sem fim) são fruto deste dia em que eu entendi que só seria feliz (e consequentemente traria também felicidade à minha volta) se me relacionasse com o mundo de maneira honesta, e de coração aberto.


Sempre me esforcei muito para me encaixar naquilo que acreditava ser o que os outros esperavam de mim. E ao longo da vida me deparei com inúmeras situações que expunham o absurdo desta crença neste molde imaginário. Parece que quando a gente insiste demais em um caminho que nos tolhe mais do que nos faz florescer, a vida, linda e amorosa com toda a sua compaixão, vai colocando o dedo bem na ferida, mais e mais... não porque quer que doa, mas porque quer que a gente cresça.


Assim, de uns 3 anos para cá, a ferida do ‘fazer-tudo-para-ter-a-aprovação-do-outro’ começou a doer mais. Astrólogos chamariam de retorno de Saturno (há 3 anos eu tinha 27 anos). Mas o fato é que algo incomodava, algo não estava legal, e não sabia o porquê. Na teoria eu não tinha do que reclamar, mas ainda assim, eu reclamava. Então, se por fora tudo estava bem, o único lugar que me restava checar, para ver de onde vinha o incômodo, era o lugar mais temido de todos: dentro.


Eu me lembro do dia. O Atelier Terrarosa já existia, e eu tinha acabado de passar por um período de dois meses de pausa no trabalho para entender qual rumo queria seguir. Lembro que naquele exato instante eu almejava por calma, por uma maneira de trabalhar em que eu pudesse estar mais em sintonia com o tempo natural de cada coisa – e ao mesmo tempo, me doía pensar em todos os ‘senões’ e ‘porquês’ e ‘caras feias imaginárias’ que surgiriam se eu realmente vivesse daquele jeito. E então, me lembro vividamente da sensação que assolou meu peito logo em seguida, como uma respiração profunda, como se todo este tempo eu estivesse debaixo d’água e este fosse o primeiro respiro depois de muito tempo: tudo aquilo que meu coração pedia que eu fizesse — viver uma vida com presença, trabalhar com o que eu amava genuinamente, me relacionar com mais calma e menos pressa, entre outras tantas coisas — eu podia fazer, e não havia ninguém dizendo que não podia, a não ser eu mesma. Eu havia acabado de passar por um turbilhão de mudanças e ainda assim, ainda havia uma chavezinha tão importante e simples quanto esta a ser virada. ‘Faça o que o seu coração manda. Sem medo, peito aberto.’


Entendi neste dia que a gente passa por tudo o que passa nesta vida apenas para tirarmos a venda que está em nossos olhos, a qual nós mesmos colocamos. Eu entendi também neste dia que nunca nenhuma mudança significativa no mundo ocorreu quando se continuou fazendo/sendo aquilo que já se fazia/era. Entendi finalmente a frase mais batida de todas as frases profundas de Facebook (que aliás, é do Gandhi): seja a mudança que você quer ver no mundo.


Desde então, eu redescubro esta descoberta (rs) de tempos em tempos, em diferentes níveis, e olhando para diferentes partes da vida. A cada vez acho dentro de mim mais um cantinho sombrio com uma Marina meio acanhada e com medo. E nela jogo a luz da verdade de que muito do que me acanha fui eu mesma quem criou. Essa luz é amorosa e compassiva. Destrói, de maneira fulminante, as amarras que me prendem, e me liberta de fardos que já não me servem. Ah… que alívio não carregar mais este peso. E tem tantos ainda para descarregar...


Pois bem. Meu coração me diz para trabalhar lentamente dentro de um mundo corrido. Me diz para ter foco naquilo que estou fazendo, quando o mundo pede que eu esteja sempre disponível no whatsapp. O coração diz que eu preciso fazer o que amo, quando o mundo me diz para fazer o que ele pede. Acima de qualquer coisa, tem uma prova do porquê acredito estar no caminho correto: aquela luz que me livrou e continua me livrando de tantas amarras é tão forte, mas tão forte, que ilumina outros cantos de outros corações, da mesma maneira que muitas luzes de outros corações foram a faísca para iluminar o meu. É por isso que eu sigo neste caminho, cada vez mais confiante na compaixão da vida. Será que há maior presente do que ser o que se É, e através disso, permitir que todos o sejam?


Eu optei por ter um atelier que trabalha fora do tempo do mundo, que não se encaixa, que não faz sentido, mas que funciona. Não porque fazer o que eu faço é o certo, mas porque isso é o que me faz ser uma pessoa melhor, que é a única coisa verdadeiramente relevante que eu posso fazer nessa vida. E escrevo essas linhas porque essa jornada não é solitária — bem pelo contrário, ela só faz sentido se a minha ação permite que outros vivam de maneira mais livre também; a vitória de um não é verdadeira se não for a vitória de todos.


E assim começo este blog. Explicando que é para isso que eu trabalho, é para isso que eu escrevo, é para isso que faço o que faço da maneira que faço. Não há nada nesta vida que não seja para que a gente encontre nosso verdadeiro e imutável ser.


6 comentários

atelier terrarosa © 2020