• Marina

Reaproveitamento: usando o fio de uma blusa para tecer outra



Ano passado conheci pelo Instagram a PetiteKnit — site de uma dinamarquesa que desenvolve receitas de tricô lindas — e fiquei semanas (ok, acho que na verdade, meses) namorando todos os modelos, tentando decidir qual receita eu iria adquirir para tricotar.


Pra quem não tricota, ficar meses decidindo por um receita de tricô pode parecer um pouco absurdo, mas, pra explicar, o problema é que não adianta acharmos uma receita linda se não acharmos, junto com ela, um fio correspondente, ou seja: parecido, em textura e espessura, com aquele indicado pela autora da receita. Escolher um fio mais grosso ou mais fino resulta em um tricô todo fora de proporção — coisa que definitivamente a gente não quer, depois de horas e horas tricotando uma blusa, certo? Então não é só uma questão de decisão, e sim uma questão de ser um encontro escrito nas estrelas entre receita e fio disponível.


Só que, além da necessidade dessa combinação perfeita, outros dois detalhes limitavam minhas opções: queria muito usar um fio de matéria prima natural (ou seja, lã), porém meu orçamento disponível para comprar fios naquele momento era... zero.


Se você tricota, crocheta, borda, ou faz qualquer outro tipo de trabalho criativo manual vai me entender quando digo que, apesar desses limitantes, estava com uma coceirinha danada nas mãos pra começar a tricotar logo. Com um orçamento zerado, porém sem nenhuma vontade de ceder aos fios com acrílicos e poliésteres (que têm sempre preços mais acessíveis e são mais disponíveis aqui no Brasil), resolvi por fim me adaptar. Como sempre, quando o orçamento é curto, a criatividade entra em jogo pra resolver nossas coceirinhas manuais.


Um dia olhei pro meu armário, especificamente para um cardigã de cashmere que pouco usava, e pensei... será que não poderia desmanchá-lo, e usar o fio para tecer uma das receitas que andava cobiçando? Quando se trata de peças tricotadas em casa, eu sabia que desmanchar um tricô era possível. Mas nunca tinha pensado e nem visto alguém fazer o mesmo com uma peça comprada de uma loja.



O cardigã em questão era uma peça linda e básica, que tinha tudo pra ser a mais usada do meu guarda-roupa, não fosse o fato de que era 2 tamanhos menor que o ideal. Ele foi o velho caso da compra de liquidação: uma peça linda e perfeita, de uma marca que amamos, e que, em condições normais não teríamos condiçõe$ de comprar... mas, porque nos deparamos com ela pela metade do preço original, ou seja, miraculosamente acessível ao nosso bolso, achamos que a 'pequena' questão do tamanho não vai ser um problema... Obviamente, ledo engano. No caso desse cardigã, na teoria ele era tudo que eu amo: cinza, básico, macio... mas na prática também tamanho XS, muito justo nos braços, o que me incomodava, e fazia com que não caísse bem. Em dois anos, usei 3, 4 vezes, no máximo. Muito pouco para uma peça que deveria ser um básico perfeito.


Voltando à minha ideia, com uma pesquisa rápida na internet descobri que desmanchá-lo para aproveitar o fio era, sim, possível. Encontrei alguns videos de pessoas falando sobre o assunto. Claro que, ainda assim, haviam grandes chances de desmanchá-lo e dar tudo errado, e no final e no final fical sem o fio e sem o cardigã. Mas achei que o risco valeria à pena pelo experimento. Afinal, ele já estava sendo um peso morto no meu armário de qualquer maneira.


Acelerando a história toda para hoje, desde o dia em que comecei o processo de desfazê-lo, quase um ano se passou; depois de muitas etapas, e com meu cardigã mágico enfim transformado em blusa pronta, vim aqui compartilhar todo o processo — porque achei que fazer isso é uma coisa legal demais pra não ser passada adiante. Fico aqui pensando que, além da possibilidade maravilhosa de encontrarmos verdadeiras minas de ouro dos fios dentro do nosso próprio guarda-roupa, podemos pensar, também, em comprar peças de segunda mão com a finalidade de usar seu fio, e não a peça em si. Quantas blusas de fios lindos e nobres, porém de modelos datados, não estão por ai encalhadas em brechós?


Para não me estender demais, não vou elencar aqui todos os benefícios que há em reaproveitamentos em geral (ou, no termo mais conhecido, upcycling). A gente já está careca de saber que nosso planeta agradece, e muito, se pudermos deixá-lo um pouco em paz reutilizando todo e qualquer recurso, sem demandar por novos. Porém, acho que vale pelo menos citar e lembrar que a indústria da moda é especialmente uma das que mais polui e usa recursos naturais finitos do planeta. Sobre este assunto, deixo aqui o link para o perfil do Instagram da Mônica Benini, que fez recentemente posts ótimos sobre moda consciente. Recomendo demais segui-la para saber mais a respeito, ela está sempre falando sobre isso.


Abaixo vou compartilhar as etapas que segui para conseguir transformar meu cardigã encalhado em suéter amado (rs), explicando tudo direitinho caso te anime a desmanchar alguma blusa por ai também. Tenho certeza que você deve estar pensando: "que trabalhoso!"... mas depois de ver a peça pronta, e que, agora sim, a gente ama e veste com prazer — e ainda por cima, pagando pouquíssimo por isso (no meu caso, só o preço da receita, que foi algo em torno de 30 reais) — não tem como não pensar que vale demais todo o processo. E, afinal de contas, fazendo jus ao termo slow fashion... que pressa a gente tem?



Passo 1: nem toda blusa pode ser desmanchada.


Antes de sair desmanchando qualquer tricô, é preciso verificar se a peça escolhida pode efetivamente retornar ao estado de fio. Para isso, o primeiro passo que fiz foi virar meu cardigã do avesso, e analisar suas costuras. Muitos tricôs que compramos em lojas têm costuras internas finalizadas com overlock — um tipo de acabamento que corta o excedente do tecido enquanto finaliza a peça. Quando um tricô tem suas costuras finalizadas assim, ele automaticamente não está mais apto pra ser desmanchado, pois o corte transformou cada carreira em um fio independente. Desmanchá-lo faria com que a gente obtivesse dezenas de fios curtos ao invés um único fio longo e contínuo, como em um novelo.


Já outras peças — e, felizmente, era este o caso da minha — são feitas de partes independentes de tricô (mangas, frente, costas, etc) unidas por uma costura em ponto corrente, o que mantém a integridade do fio. Estas são as peças que podemos desmanchar sem medo.


Abaixo, dois exemplos: primeiro, na blusa clara, a costura em ponto corrente; depois, na escura, o acabamento em overlock.


Antes de desmanchar, também é legal checar a composição do fio em questão. Como esta foi a primeira e única blusa comprada que desmanchei até agora, e ela era feita de um fio 100% lã natural (cashmere), não arrisco afirmar que daria certo com fios de outras composições, e explico o porquê nas etapas abaixo.



Passo 2: desfazer as costuras.


A etapa seguinte foi, justamente, desfazer todas essas costuras que juntavam as peças que formavam o cardigã. Aqui o único segredo foi tomar cuidado para fazer isso da maneira mais delicada possível. Usei um descosturador com todo o cuidado do mundo para não cortar mais do que devia (e acabar cortando o fio do tricô em si).



Passo 3: desmanchar o tricô


Com todas as partes separadas, é hora de finalmente começar a desmanchar os pontos, coisa que, confesso, requer bastante paciência. Primeiro é preciso achar uma pontinha de fio solto, onde o tricô tenha sido arrematado. Porém, assim como quando tricotamos algo, não é possível desmanchar os pontos puxando-se o fio do início do trabalho, aqui vale a mesma regra: é preciso achar um fio solto que corresponda ao final das carreiras, ou seja, ao arremate da peça. Pela lógica, peças são tricotadas de baixo para cima, mas imagino que cada tricô seja de um jeito. Na dúvida é só desmanchar um pouco — se for possível desfazer os pontos com facilidade, você achou o lado correto.


Esta parte me exigiu paciência pois o fio da minha blusa era beeeem fininho, e por isso, se puxasse com muita força, ele facilmente quebrava. Quebrar o fio não é em si um problema — a única coisa que acontece é que a gente acaba com vários pequenos novelos ao invés de um inteiro para cada parte da blusa. Mas, no caso de fios finos como o meu, é bom e melhor desmanchar com o máximo de cuidado, para evitar que o fio se quebre demais.



Passo 4: desfrisar o fio


Se você tricota, sabe que, ao desmanchar uma carreira, mesmo ela tendo sido recém tricotada, o fio toma a forma dos pontos, e se torna todo frisado. Não é ideal tricotar com o fio desta maneira, pois à primeira lavagem o frisado vai ceder, e a peça aumentará de tamanho. Por isso, depois de todo o tricô desmanchado, é essencial lavar o fio em água morna, para que ele retorne ao seu estado liso original.


Por isso falei, lá no primeiro passo, sobre a importância de saber a composição do fio antes de começar o processo. Uma das características maravilhosas da lã natural é que ela 'relaxa' e volta ao seu estado liso quando mergulhada em água morna. Não sei se é possível fazer o mesmo com fios contendo fibras artificiais (acrílico, poliéster) ou mesmo outras fibras naturais (algodão, bambu), nunca testei. Por isso é melhor saber a composição da blusa antes de desmanchá-la.


Para desfrisar os fios, enrolei-os em meadas*** e mergulhei uma por vez em água morna (importante: tem de ser morna mesmo, nunca quente; agradável o suficiente para que as mãos possam ficar mergulhadas nela sem que você se queime. Em água muito quente, a lã encolhe.) e, com movimentos circulares, aos poucos o amassado do fio foi cedendo e as fibras ficando novamente lisas. Dá pra ver direitinho no video abaixo.



Feito isso, pendurei as meadas para secarem no varal. Deixei por vários dias, para ter certeza de que a lã estava totalmente seca antes de seguir em frente.



***Sobre as meadas, NÃO faça como eu... seja paciente e amarre suas meadas direitinho para que o fio não se enrole todo enquanto estiver na água. O ideal (que eu não fiz) é amarrá-la em vários pontos, sem apertar demais, mas de maneira suficiente para que o fio não se solte ou desenrole. Faça isso e evite um emaranhado interminável de nós, como o que eu tive que desatar depois.



Passo 5: descobrindo a metragem


Com as meadas devidamente secas e o fio lisinho novamente, é hora de descobrir quantos metros de fio você tem para trabalhar.


Essa é outra parte que requer bastaaaante paciência, pois a vontade é, certamente, sair tricotando. E por que não fazê-lo, você me pergunta? Porque ainda que pareça obvio que, se aquela quantidade de fios veio de uma blusa, ela será suficiente para tricotar outra blusa, não é bem assim. Se o intuito for usar o fio da blusa desfeita para fazer peças menores — gorros, lã, cachecóis e etc. — dá pra seguir em frente sem grandes problemas, pulando essa etapa. Porém, receitas de blusas diferentes requerem metragens específicas de fio. E não vai ter como comprar mais se o fio acabar no meio da peça, certo?


Além disso, no meu caso, porque o fio que obtive da blusa desfeita era tão fininho, eu pretendia usá-lo duplo, ou seja, tricotando a receita da nova blusa usando dois fios ao mesmo tempo. Saber a metragem exata que tinha em mãos era portanto essencial para que eu pudesse estabelecer se era suficiente para tricotar a receita que tinha em mente. Respirar fundo e ter paciência para passar por essa etapa valia muito mais do que chegar ao meio da blusa tricotada e descobrir que não teria lã suficiente para terminá-la.


Medir a metragem dos fios pode ser um processo lento, porém é bem fácil. Só requer atenção pra não perder a conta! Há várias maneiras de fazê-lo, e a mais óbvia delas é medindo-se metro por metro com o auxílio de uma régua, fita métrica ou uma marcação. Eu acabei buscando um atalho um pouco mais rápido, que deu super certo: com uma fita métrica, fui medindo os encostos das cadeiras aqui de casa, até que achasse uma cuja volta correspondesse a exato 1 metro. Assim, ao simplesmente enrolar os fios no encosto desta cadeira, e contar quantas voltas ele havia dado, consegui encontrar a metragem de cada meada. Obviamente fazendo isso não obtive metragens exatas e precisas (pra isso seria melhor usar a régua), mas foi o suficiente para eu ter pelo menos uma boa noção da quantidade de metros de fio que eu tinha para trabalhar.


Conforme medi cada meada, enrolei o fio em novelos, e anotei sua metragem em um rótulo de papel, como dá pra ver na foto acima.



Parte 6: enfim, tricotar


Pronto, agora sim eu podia partir para a parte, digamos, mais divertida! Com a metragem total em mãos, encontrei a receita que mais se adequaria ao fio que tinha mãos, tanto em relação à quantidade de metros necessária, quanto à espessura. Escolhi tricotar a Cumulus Blouse — um blusa bem levinha e básica. Fiz uma amostra para me certificar de que a combinação deste fio com esta receita daria certo (e dava!) e o resultado está aqui: uma blusa que já usei mais vezes em um mês, do que havia usado o cardigã original em anos. E ainda sobrou fio para mais alguns projetos menores. Missão cumprida!


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