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Carta aberta aos sonhadores

 
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Esses dias minha ficha caiu: apesar de eu nunca ter admitido/aceitado, vivo nesse mundo como uma sonhadora.

Me dei conta disso um dia recapitulando conversas soltas que tenho corriqueiramente com amigos e conhecidos, quando estou falando de como eu trabalho/gostaria de trabalhar, ou mesmo dando opiniões sobre a maneira de trabalhar de outras empresas e pessoas. Nessas conversas, eu acabo sempre falando sobre 'como seria legal isso, e aquilo', falando um mundo que não existe, utópico. Meus comentários, dependendo da pessoa com quem estou conversando, na grande maioria das vezes são recebidos com frases do tipo “ah, mas isso é em um mundo ideal! Na realidade, é impossível” – entre outras variações no mesmo tema.

Não me levem a mal: sonhadores não são melhores que ninguém e sozinhos não vão muito longe. Precisam, e muito, de realizadores ao seu lado  – vide meu casamento com um virginiano que resolve qualquer assunto prático em 1/10 de tempo do que eu. Assim como a natureza sempre se equilibra, sem querer, eu e ele criamos esse equilíbrio aqui em casa, onde eu embarco em (boas) viagens na maionese e ele faz as coisas acontecerem. Eu sonho, ele faz, e assim a coisa toda anda.

Ainda assim, uma vez, em prantos, disse ao meu pai que queria ser como meu marido, pois a vida para ele era mais fácil. Realizadores são bem vistos por todos, têm uma facilidade imensa de sobreviver nesse mundo prático. Como seria mais fácil gostar de trabalhar em uma empresa das 8h às 18h (ou 19h? 20h? 23h49?), trabalhar bem em grupo e em uma área tão normal quanto economia. Obviamente, meu pai foi rápido em me lembrar que é fácil também considerar a grama do vizinho mais verde, e que todos nós, sem excessão, andamos neste mundo com nossos próprios fardos para carregar.

Sem conseguir enxergar o lado positivo de ser uma deslocada no mundo da praticidade, grande parte da minha vida foi dedicada a focar apenas no ônus dessa equação, carregando um peso que nunca entendi e por isso mesmo me limitando a sonhar sonhos possíveis e não 'perder' tempo, energia ou dinheiro com o que, até aos meus próprios e críticos olhos, traria resultados sem real serventia.

Como já mencionei, acredito no poder de auto-equilibrio da natureza, e sendo nós micro-cosmos dessa mesma natureza, passamos por aquilo que devemos passar para que o equilíbrio se restabeleça em nós e na grande teia a qual pertencemos. Assim, ser sonhadora se tornou meu trabalho. Escolha minha? Com certeza. Consciente, mas, confesso na maioria das vezes nem tanto. É como se uma força sempre tivesse me puxado para deixar de lado a persona Marina-cdf-realizadora-resolve-tudo e, através dos tropeços, das batalhas 'perdidas' e das birras, me mostrasse como verdadeiramente eu poderia desempenhar meu papel mais profundo, por baixo de toda a casca grossa do papel social.

E, minha gente, não há nada mais incongruente nesse mundo do que trabalhar com arte. Sinceramente não sei nem como é que essas duas palavras entram em uma mesma frase, sendo ambas quase uma antítese uma da outra. Fato é que, justamente essa dificuldade de convergir dois mundos tão distintos, abriu meus olhos para o outro lado da moeda.

Então, fui entendendo: eu e mais um monte de sonhadoras e sonhadores por ai vamos fingindo que a gente trabalha, arrumando desculpa pra denunciar o óbvio, mesmo sem saber – denuncia essa que é o principal papel do que fazemos. Uma denúncia oculta visualmente, mas que vem a tona com um simples olhar mais lógico. Assim:

Trabalho artístico é, basicamente, uma cartaz escrito em letras garrafais "TUDO É MENTE". Como diz Lama Samten, o trabalho artístico, justamente por sua 'inutilidade' escancara a maneira como somos, como agimos, como nos manifestamos e nos relacionamos, o mecanismo simples porém efetivo e direto através do qual existimos. Duvida? Imagine o seguinte: o artista sonha mundos intermináveis; como um mergulhador que emerge da água, coloca a sua cabeça pra fora do oceano de convenções e, a céu aberto, enxerga o infinito; e depois, no papel / barro / tela / madeira ou seja lá o que for, mergulha de novo e conta no mundo de convenções aquilo que viu. O artista é esse portal entre o que é considerado possível e impossível.

É claro que, no processo, ele abre uma ferida. Quem não vê a mesma possibilidade daquilo que está sendo escancarado o chama de louco, marginal, inútil. Pega o artista no colo como uma criança e começa a dizer "Poxa vida, tadinho. Vem cá, deixa eu te contar como o mundo funciona: primeiro você tem que ter boas notas, depois você se casa, depois..." Muitos acabam acreditando. Dói menos seguir o que nos falam (será?). Outros nunca nem se perguntaram... mas tem algo que arde no peito e não sabem porque.

E ai... entra a beleza da coisa toda: o oceano de convenções onde nada o mergulhador e o céu infinito acima dele, nunca foram dois: convenções são criatividade pura. Criatura e criador.

Apesar do nosso mundo ser aparentemente material, olhem a volta e pensem comigo: tudo o que vemos um dia foi sonhado por alguém. Mais; não só o que vemos, mas também os aspectos intangíveis desse mundo, como leis, a bolsa de valores, relacionamentos, comunidades, conceitos, tudo é fruto de uma mesma origem, que é a capacidade que todos nós possuímos de imaginar, criar. Alguns, claro, são mestres em imaginar e construir coisa 'úteis', em oposição à 'inutilidade' da criação artística. Porém, o ponto é que o mecanismo é o mesmo, e, de modo geral, somos TODOS sonhadores e temos uma mente plástica e infinita como o próprio Universo. É assim que o mundo existe e continua a existir, simplesmente porque nós olhamos com olhar criativo pra tudo; temos consciência e assim, criamos. Vemos a possibilidade de uma cadeira em um monte de peças de madeira coladas; vemos a possibilidade da própria madeira em uma árvore! E o mais engraçado é que com essa mesma mente, tentamos colocar fronteiras para definir o indefinível. Então, do que são feitas essas fronteiras? Oras... de mente, e não de arame farpado...

Essa é umas 'pirações' que a arte 'inútil' me fez enxergar. Pensei, na minha cabeça de sonhadora, que seria o máximo se a gente percebesse isso de uma vez por todas. Poderíamos brincar de tudo: de ser banqueiro e de ser artista, olhando tudo com os mesmos olhos de criança arteira.

Bom, vou parar por aqui, porque isso é prosa pra horas e pra vidas. Este texto começou a ser escrito como uma mera divagação 'em voz alta', mas pode ser também uma maneira de liberar sonhadores enrustidos ou empoderar realizadores que se acham pouco criativos. Se não servir pra nada, tudo bem também – pois desse modo, já serviu pra alguma coisa.